Publicado por: cinemastation | 14/12/2009

ENTREVISTA: PEDRO ALMODÓVAR “O MUNDO FICARIA LOUCO SEM FICÇÃO”

Sempre quis falar sobre Pedro Almodóvar, o espanhol é um dos diretores mais aclamados pela crítica. Em entrevista na revista Época dessa semana o cineasta fala sobre sua fase mais “séria” e da necessidade que as pessoas têm de consumir ficção, tanto culta como popular.

ÉPOCA – Você desenvolveu a carreira a partir da mudança de gêneros: comédia, depois melodrama, drama e agora a reflexão sobre um filme dentro do filme. É o resultado de uma evolução intelectual?

PEDRO ALMODÓVAR – Mais que isso, minha obra se regeu pela evolução biológica. Comecei na juventude com comédias disparatadas. Elas foram um reflexo da história da Espanha. Meus filmes jovens corresponderam à eclosão da democracia no país depois de uma longa ditadura franquista. Os espanhóis viviam a liberdade, rompendo com os hábitos de uma sociedade repressiva, que via o sexo como pecado mortal. O final dos anos 70 e o início dos 80 representaram um momento de celebração coletiva. E a cidade de Madrid desabrochou como uma das cidades mais incríveis da Europa, com uma vida alternativa única. Meus primeiros filmes eram alegres porque retrataram essa mudança radical de comportamento. Com o passar do tempo, os temas foram ficando mais graves. Primeiro veio o melodrama com uma visão crítica, depois o drama duro. A vida me levou a refletir sobre o passado, sobre a infância e a morte. Não que eu me sinta triste com a maturidade nem que meus filmes não tenham humor. Acontece que tudo hoje é menos divertido. Com 20 anos, a gente agita mais! (risos) Eu estava rodeado de amigos e saía toda noite, dançava, cantava. Agora, com 60, meu cotidiano é mais regrado e mais sem graça.

R.É – Você quis construir uma metáfora da Espanha atual com Mateo, cineasta cego?

A – Sim, é a metáfora de uma sociedade que perdeu sua memória histórica. Os espanhóis precisam acertar as contas com seu passado. Mateo está cego, enterra o passado e reinicia a vida a partir do esquecimento. Como ele, os espanhóis ficaram cegos em relação ao passado para construir um futuro fraterno. Foi preciso esquecer as diferenças. Aos poucos, Mateo é obrigado a considerar o que ficou incompleto. O filme “Garotas e malas” foi um fracasso, mas ele nunca entendeu por quê. Também perdeu a mulher que amava. Ao lado de Mateo está Judit, cuja função é fazê-lo lembrar e superar o que deixou para trás. Como ele, os espanhóis se dão conta da necessidade de reparar os erros da ditadura. Ainda há milhares de mortos em valas comuns. Eles foram fuzilados, e as famílias tem direito a uma reparação. Temos de ter coragem de enfrentar a situação em um país onde 50% da população é de direita. Esta segunda transição, que estamos vivendo dolorosamente, é que eu quis simbolizar o filme.

ÉPOCA – Lena (Penélope Cruz) não é uma personagem estereotipada em sua vontade de virar estrela?

PEDRO ALMODÓVAR – Ela possui três facetas. Além de sensual e vaidosa, tem uma dureza desafiadora. Sua trajetória de sforimento a leva escolhas perigosas, como se unir a um homem rico que banca seu sonho. Mas ela se apaixona pelo diretor e tudo a conduz à destruição… Lena é a personagem mais trágica que já criei. Fiquei com uma pena dela à medida que escrevi o roteiro. Por mais que quisesse salvá-la, o enredo a conduzia à fatalidade. Não posso salvar todo mundo

R.É – Você gosta de tirar sangue dos atores. Como foi trabalhar com Penélope, Homar e Blanca Portillo?

A – Tento explorar os sentimentos dos atores, e eles precisam ter disposição para isso. Para construir Lena, tive de me esforçar para manter o controle sobre cada atitude de Penélope para na cair no sentimentalóide. Foi um reencontro mágico. Ela é uma boa atriz, mas não tinha uma referência para interpretar Lena, uma mulher calejada, dura e agressiva. Tivemos de ensaiar muito para chegar a um resultado verossímil. Penélope mostrou disciplina. Ela tem força de vontade. Nem ela nem Lluis (Homar) são de jogar a toalha. Eles enfrentaram seus papéis. Lluis teve de interpretar às cegas, e para isso sofreu bastante. Blanca é um gigante do teatro, não precisou de esforço para chegar aonde queríamos. Como não tive tempo de ir ao teatro, fiquei surpreso quando a conheci.

R.É – Você gosta de teatro e não tem tempo para assistir a peças?

A – Adoro teatro, e nunca tive tempo de acompanhar as temporadas. Mas resolvi ir mais ao teatro. O teatro enriquece, traz ideias e vivências únicas.Presto atenção nos desempenhos dos atores e nas falas. O texto é a essência do teatro e do cinema. Sou fascinado pelo texto.

R.É – Nunca lhe ocorreu dirigir um drama no teatro?

A – Sim, uma das coisas que sonho fazer é teatro. Tenho uns três monólogos que talvez sirvam para ser representados. Se isso não for possível, ou se não funcionar, gostaria de tentar encenar dramas de meus autores favoritos, como Tchékhov e Ibsen. Tenho medo de estrear em uma sala grande porque sei que a expectativa seria enorme, e eu poderia fracassar. Meu plano é estrear em uma sala pequena e fazer a fama aos poucos. Quem sabe dá certo?

R.É – É verdade que um de seus sonhos era ser escritor, antes mesmo de virar cineasta?

A – Escrevo desde pequeno e queria virar escritor. Eu imaginava que me tornaria romancista quando completasse 45 anos. Pois o tempo passou e me dei conta de que jamais poderei ser escritor de ficção. Elaborar roteiros é uma coisa. Escrever contos e romance é outra. Seu contar uma história, mas com a câmera!

ÉPOCA – São tantas as citações em “Abraços Partidos” que o espectador pode se perder não é verdade?

PEDRO ALMODÓVAR – É uma declaração de amor ao cinema. No processo, foram brotando minhas obsessões de cinéfilo: o suspense, a situação da escada, as imagens de atrizes do passado, como Marilyn Monroe e Audrey Hepburn, os clássicos de Roberto Rosselini e Louis Malle… E não faltaram meus filmes de juventude. A comédia que Mateo filma, estrelada por Lena, é “Garotas e malas”, o primeiro título de “Mulheres à beira de um ataque de nervos”. Na verdade, quis desenvolver uma comédia disparatada que partisse de “Mulheres…” – e chegasse ao extremo do absurdo. Pena que não pude manter tudo. Deverá sair nos extras do DVD. Amei voltar a minha história cinematográfica.

R.É – Qual a função do cinema hoje?

A – O cinema deve completar a realidade, porque é mais importante que ela. Não que eu despreze os filmes naturalistas. Só que esse tipo de cinema não me interessa como diretor. Meu cinema é a representação artificiosa da realidade. A ficção é um fato necessário da vida. Sem ficção, as pessoas ficariam loucas. Se houvesse um dia uma greve de ficção e, por um tempo, não se produzissem mais histórias para as pessoas escaparem da realidade, haveria um caos no mundo. A ficção é necessária porque a vida das pessoas não é suficiente, a realidade é incompleta. Ainda mais em países pobres, como tantos que ainda existem. A ficção se torna para os desgraçados uma forma de sobreviver. Como artista, sinto necessidade de viver intensamente uma fantasia. E não me refiro a filmes elaborados! As telenovelas preenchem uma necessidade do público faminto por ficção.

R.É – No filme há uma defesa de família. É uma instituição necessária?

A – A essência da família é necessária para que as pessoas possam viver felizes e organizadas. Isso não quer dizer que o modelo patriarcal deva dominar. Repare em “Abraços Partidos”. Há uma família e só por causa dela é que Mateo vê sentido em sua existência. Judit mantém todos unidos. Ela teve um caso rápido com Mateo no passado. E aproxima Mateo de Diego, que vem a ser seu filho, e ele não sabia. Essa família assimétrica existe e continua como fonte de todas as histórias.

R.É – Em agosto, você criticou o papa Bento XVI dizendo que ele não era capaz de ver novas formas de família. Você imaginava que teria tanta repercussão?

A – Foi engraçado, porque eu respondi a uma pergunta muito secundária sobre o que eu achava da família. Disse que os gays e travestis também podem e devem cultivar relações familiares. São eles que estão construindo novos modelos de família, que estão funcionando com harmonia. Só o papa se recusa a enxergar o novo mundo que está nas ruas. O papa só reconhece a família patriarcal católica, e nada mais. Bom, o que eu não esperava é que o Vaticano fosse me responder dizendo que o papa está mais antenado do que eu em termos de novas formas de sociabilidade. Jamais esperava que o Vaticano desse tanta importância ao que disse. O que eu acho do papa é muito pior, ele tem outros defeitos que devem ser apontados e poderiam ser corrigidos. Já que o Vaticano presta tanta atenção no que digo, vou começar a fazer críticas mais contudentes à Igreja, quem sabe ela pode mudar! (risos).

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