Publicado por: cinemastation | 03/08/2009

A ESTÉTICA DE ANTÔNIA


Esses dias me deparei com “Antônia” de Tata Amaral, juro que ainda quebro as barreiras do meu “pré-conceito” com filmes que levam a assinatura da Globo Filmes. “Antônia” sempre pareceu gritar nas prateleiras das vídeolocadoras e eu sempre procurei ignorar o seu grito. Mas como nenhum outro tipo de “opção” me ocorreu, resgatei “Antônia” e fui atacado por um musical belamente dirigido e produzido, como uma canção que ecoa como poesia para os sentidos. Lembrei-me de Glauber Rocha e sua estética da fome e descobri que deixar levar por seus preconceitos é vergonhoso.

(..) Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não entendeu. Para o europeu, é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro, é uma vergonha nacional. Ele não come, mas tem vergonha de dizer isto; e sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós – que fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto, – que a fome não era curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem, mais agravam os seus tumores. (..) (ROCHA, Glauber. Uma estética da Fome)

Não dá para negar que o inicio de “Antônia” chega a lembrar vagamente a premissa do horrível “Dreamgirls” Em Busca de um sonho”, inclusive cheguei a me perguntar depois se isso tudo não era proposital. Em partes, porque “Antônia” de forma simples deixa “Dreamgirls” no chão, deixando claro que nenhum tipo de glamour hollywoodiano cantando historinhas tristes arrebate o coração daquele que escancara a realidade na sua frente.
“Antonia” conta a história de Preta (Negra Li), Barbarah (Leila Moreno), Lena (Cindy) e Mayah (Quelynah) onde desde pequenas sonham em viver da música. Descobertas por um empresário começam a se apresentar em pequenos eventos. Com a câmera sempre em movimento e a edição em cortes secos, “Antônia” ganha um estilo muito parecido com o documentário, escrito também por Tata Amaral ao lado de Roberto Moreira a trama se desenvolve no relacionamento entre as quatro mulheres e suas dificuldades.
Lutando avassaladoramente para conquistar a ascensão profissional, o grupo musical que dá nome ao filme, precisam se desvencilhar da miséria e da violência e da própria realidade sufocante. Com uma direção de fotografia muito bem trabalhada, o fotógrafo Jacob Solitrenik representa fielmente o sentimento de “Antônia” mergulhando a câmera nos inclinados caminhos do morro, onde o sonho está na paisagem fora daquele retalho social, no embaçado e granulado céu, o que revela a estética do cinema nacional, o estranho surrealismo tropical que nos dizia Glauber Rocha.
Não dá para não falar do elenco criado por Sérgio Penna, das quatro jovens cria com naturalidade incrível, o valor documental de “Antônia”. Curioso também é o trabalho das atrizes que em certo momento percebem até a presença da câmera revelando ao público a proposta do documentário. Até o empresário Diamante (Thaíde) divertidíssimo, mostrou-se um ótimo ator.

(…) já passou o tempo em que o Cinema Novo precisava processar-se para que se explique, à medida que nossa realidade seja mais discernível à luz de pensamentos que não estejam debilitados ou delirantes pela fome. O Cinema Novo não pode desenvolver-se efetivamente enquanto permanecer marginal ao processo econômico e cultural do continente Latino-Americano; além do mais, porque o Cinema Novo é um fenômeno dos povos novos e não uma entidade privilegiada do Brasil: onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade, e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura intelectual, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo. Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e as sua profissão a serviço das causas importantes do seu tempo, aí o haverá um germe do Cinema Novo. A definição é esta e por esta definição o Cinema Novo se marginaliza da indústria porque o compromisso do Cinema Industrial é com a mentira e com a exploração. A integração econômica e industrial do Cinema Novo depende da liberdade da América Latina. Para esta liberdade, o Cinema Novo empenha-se, em nome de si próprio, de seus mais próximos e dispersos integrantes, dos mais burros aos mais talentosos, dos mais fracos aos mais fortes. É uma questão moral que se refletirá nos filmes, no tempo de filmar um homem ou uma casa, no detalhe que observar, na moral que pregar: não é um filme mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim, ao público a consciência de sua própria miséria. (…) (ROCHA, Glauber. A Estética da Fome).

“Antônia” revelou-se mais uma obra prima do cinema nacional, como proposta do consumo já dito por Glauber Rocha, estamos num patamar em que o cinema estrangeiro nos vê como discussão social e um surrealismo cult, o que é um pouco vergonhoso quando nós, brasileiros, vemos tudo isso como apenas uma vergonha nacional.

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