Sempre quis falar sobre Pedro Almodóvar, o espanhol é um dos diretores mais aclamados pela crítica. Em entrevista na revista Época dessa semana o cineasta fala sobre sua fase mais “séria” e da necessidade que as pessoas têm de consumir ficção, tanto culta como popular.

ÉPOCA – Você desenvolveu a carreira a partir da mudança de gêneros: comédia, depois melodrama, drama e agora a reflexão sobre um filme dentro do filme. É o resultado de uma evolução intelectual?

PEDRO ALMODÓVAR – Mais que isso, minha obra se regeu pela evolução biológica. Comecei na juventude com comédias disparatadas. Elas foram um reflexo da história da Espanha. Meus filmes jovens corresponderam à eclosão da democracia no país depois de uma longa ditadura franquista. Os espanhóis viviam a liberdade, rompendo com os hábitos de uma sociedade repressiva, que via o sexo como pecado mortal. O final dos anos 70 e o início dos 80 representaram um momento de celebração coletiva. E a cidade de Madrid desabrochou como uma das cidades mais incríveis da Europa, com uma vida alternativa única. Meus primeiros filmes eram alegres porque retrataram essa mudança radical de comportamento. Com o passar do tempo, os temas foram ficando mais graves. Primeiro veio o melodrama com uma visão crítica, depois o drama duro. A vida me levou a refletir sobre o passado, sobre a infância e a morte. Não que eu me sinta triste com a maturidade nem que meus filmes não tenham humor. Acontece que tudo hoje é menos divertido. Com 20 anos, a gente agita mais! (risos) Eu estava rodeado de amigos e saía toda noite, dançava, cantava. Agora, com 60, meu cotidiano é mais regrado e mais sem graça.

R.É – Você quis construir uma metáfora da Espanha atual com Mateo, cineasta cego?

A – Sim, é a metáfora de uma sociedade que perdeu sua memória histórica. Os espanhóis precisam acertar as contas com seu passado. Mateo está cego, enterra o passado e reinicia a vida a partir do esquecimento. Como ele, os espanhóis ficaram cegos em relação ao passado para construir um futuro fraterno. Foi preciso esquecer as diferenças. Aos poucos, Mateo é obrigado a considerar o que ficou incompleto. O filme “Garotas e malas” foi um fracasso, mas ele nunca entendeu por quê. Também perdeu a mulher que amava. Ao lado de Mateo está Judit, cuja função é fazê-lo lembrar e superar o que deixou para trás. Como ele, os espanhóis se dão conta da necessidade de reparar os erros da ditadura. Ainda há milhares de mortos em valas comuns. Eles foram fuzilados, e as famílias tem direito a uma reparação. Temos de ter coragem de enfrentar a situação em um país onde 50% da população é de direita. Esta segunda transição, que estamos vivendo dolorosamente, é que eu quis simbolizar o filme.

ÉPOCA – Lena (Penélope Cruz) não é uma personagem estereotipada em sua vontade de virar estrela?

PEDRO ALMODÓVAR – Ela possui três facetas. Além de sensual e vaidosa, tem uma dureza desafiadora. Sua trajetória de sforimento a leva escolhas perigosas, como se unir a um homem rico que banca seu sonho. Mas ela se apaixona pelo diretor e tudo a conduz à destruição… Lena é a personagem mais trágica que já criei. Fiquei com uma pena dela à medida que escrevi o roteiro. Por mais que quisesse salvá-la, o enredo a conduzia à fatalidade. Não posso salvar todo mundo

R.É – Você gosta de tirar sangue dos atores. Como foi trabalhar com Penélope, Homar e Blanca Portillo?

A – Tento explorar os sentimentos dos atores, e eles precisam ter disposição para isso. Para construir Lena, tive de me esforçar para manter o controle sobre cada atitude de Penélope para na cair no sentimentalóide. Foi um reencontro mágico. Ela é uma boa atriz, mas não tinha uma referência para interpretar Lena, uma mulher calejada, dura e agressiva. Tivemos de ensaiar muito para chegar a um resultado verossímil. Penélope mostrou disciplina. Ela tem força de vontade. Nem ela nem Lluis (Homar) são de jogar a toalha. Eles enfrentaram seus papéis. Lluis teve de interpretar às cegas, e para isso sofreu bastante. Blanca é um gigante do teatro, não precisou de esforço para chegar aonde queríamos. Como não tive tempo de ir ao teatro, fiquei surpreso quando a conheci.

R.É – Você gosta de teatro e não tem tempo para assistir a peças?

A – Adoro teatro, e nunca tive tempo de acompanhar as temporadas. Mas resolvi ir mais ao teatro. O teatro enriquece, traz ideias e vivências únicas.Presto atenção nos desempenhos dos atores e nas falas. O texto é a essência do teatro e do cinema. Sou fascinado pelo texto.

R.É – Nunca lhe ocorreu dirigir um drama no teatro?

A – Sim, uma das coisas que sonho fazer é teatro. Tenho uns três monólogos que talvez sirvam para ser representados. Se isso não for possível, ou se não funcionar, gostaria de tentar encenar dramas de meus autores favoritos, como Tchékhov e Ibsen. Tenho medo de estrear em uma sala grande porque sei que a expectativa seria enorme, e eu poderia fracassar. Meu plano é estrear em uma sala pequena e fazer a fama aos poucos. Quem sabe dá certo?

R.É – É verdade que um de seus sonhos era ser escritor, antes mesmo de virar cineasta?

A – Escrevo desde pequeno e queria virar escritor. Eu imaginava que me tornaria romancista quando completasse 45 anos. Pois o tempo passou e me dei conta de que jamais poderei ser escritor de ficção. Elaborar roteiros é uma coisa. Escrever contos e romance é outra. Seu contar uma história, mas com a câmera!

ÉPOCA – São tantas as citações em “Abraços Partidos” que o espectador pode se perder não é verdade?

PEDRO ALMODÓVAR – É uma declaração de amor ao cinema. No processo, foram brotando minhas obsessões de cinéfilo: o suspense, a situação da escada, as imagens de atrizes do passado, como Marilyn Monroe e Audrey Hepburn, os clássicos de Roberto Rosselini e Louis Malle… E não faltaram meus filmes de juventude. A comédia que Mateo filma, estrelada por Lena, é “Garotas e malas”, o primeiro título de “Mulheres à beira de um ataque de nervos”. Na verdade, quis desenvolver uma comédia disparatada que partisse de “Mulheres…” – e chegasse ao extremo do absurdo. Pena que não pude manter tudo. Deverá sair nos extras do DVD. Amei voltar a minha história cinematográfica.

R.É – Qual a função do cinema hoje?

A – O cinema deve completar a realidade, porque é mais importante que ela. Não que eu despreze os filmes naturalistas. Só que esse tipo de cinema não me interessa como diretor. Meu cinema é a representação artificiosa da realidade. A ficção é um fato necessário da vida. Sem ficção, as pessoas ficariam loucas. Se houvesse um dia uma greve de ficção e, por um tempo, não se produzissem mais histórias para as pessoas escaparem da realidade, haveria um caos no mundo. A ficção é necessária porque a vida das pessoas não é suficiente, a realidade é incompleta. Ainda mais em países pobres, como tantos que ainda existem. A ficção se torna para os desgraçados uma forma de sobreviver. Como artista, sinto necessidade de viver intensamente uma fantasia. E não me refiro a filmes elaborados! As telenovelas preenchem uma necessidade do público faminto por ficção.

R.É – No filme há uma defesa de família. É uma instituição necessária?

A – A essência da família é necessária para que as pessoas possam viver felizes e organizadas. Isso não quer dizer que o modelo patriarcal deva dominar. Repare em “Abraços Partidos”. Há uma família e só por causa dela é que Mateo vê sentido em sua existência. Judit mantém todos unidos. Ela teve um caso rápido com Mateo no passado. E aproxima Mateo de Diego, que vem a ser seu filho, e ele não sabia. Essa família assimétrica existe e continua como fonte de todas as histórias.

R.É – Em agosto, você criticou o papa Bento XVI dizendo que ele não era capaz de ver novas formas de família. Você imaginava que teria tanta repercussão?

A – Foi engraçado, porque eu respondi a uma pergunta muito secundária sobre o que eu achava da família. Disse que os gays e travestis também podem e devem cultivar relações familiares. São eles que estão construindo novos modelos de família, que estão funcionando com harmonia. Só o papa se recusa a enxergar o novo mundo que está nas ruas. O papa só reconhece a família patriarcal católica, e nada mais. Bom, o que eu não esperava é que o Vaticano fosse me responder dizendo que o papa está mais antenado do que eu em termos de novas formas de sociabilidade. Jamais esperava que o Vaticano desse tanta importância ao que disse. O que eu acho do papa é muito pior, ele tem outros defeitos que devem ser apontados e poderiam ser corrigidos. Já que o Vaticano presta tanta atenção no que digo, vou começar a fazer críticas mais contudentes à Igreja, quem sabe ela pode mudar! (risos).

Publicado por: cinemastation | 16/11/2009

“A TETA ASSUSTADA”. DE CLAUDIA LLOSA

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Primeiro de tudo. “A Teta Assustada” de Claudia Llosa é uma obra puramente cultural, nos presenteia com a aproximação dos costumes, folclores e hábitos do Peru, que fascina por sua excentricidade e diverte pelo doce humor natural de um povo que em meio a dificuldades, busca tornar a felicidade objetivo de vida. Outro motivo porém, é que     “A Teta Assustada” encanta pelo seu olhar fílmico feminino, sua análise de discurso reconstrói os padrões de “olhares” que extrapolam a mera catalogação de gêneros.

Como premissa, a obra de Claudia Llosa revela dois mitos inerentes daquele povoado, que interferem no cotidiano e na saúde da protagonista Fausta. Como crença folclórica a família acredita que a garota sofre do mal “A Teta Assustada”, doença ou maldição que as mulheres que eram estupradas durante a guerra e o terrorismo no Peru acreditavam transmitir para os bebês durante a amamentação. Fausta impressionada com as histórias de sua mãe que está prestes a morrer adota uma crença nem um pouco saudável para evitar sofrer o mesmo mal.

O filme no início já demonstra sua crítica, a tela negra que permanece em quase cinco minutos embalada pela canção da mãe de Fausta, esta já no leito de sua morte, representa a dor feminina e o desrespeito à mulher na época negra daquele povoado. Peça desse cenário escuro, Fausta como filha dessa dor, precisa enterrar o cadáver de sua mãe, ainda guardado em casa onde vive. Além disso, a protagonista precisa lidar com o seu próprio corpo e saúde, com uma infecção no útero devido ao método nada convencional utilizado para se proteger da maldição que acredita estar. Essas ações de Fausta criam toda dramaticidade da obra, blindada contra toda e qualquer possibilidade de violência por parte de homens. Curioso também é o olhar e os movimentos de Fausta na presença masculina.

“A Teta Assustada” é um filme puramente simbólico e preocupado com seus detalhes. O portão eletrônico na casa da patroa de Fausta é a divisão entre a pobreza e a riqueza, fator comum nos países de terceiro mundo. Este signo ainda pode ser visto como representação sexual de Fausta e sua própria condição, pois é ela que determina a entrada dos homens na casa, essa relação é vista sempre com desconfiança da protagonista. Outros elementos são as batatas e as pombas, estas representam a segurança e a vida de Fausta. “Batatas são baratas e florescem pouco” diz o jardineiro para Fausta, este momento é puramente simbólico, pois é a visão da condição da protagonista.

Filmado de forma calculada, Claudia Llosa faz de “A Teta Assustada” um exercício imagético hipnotizador, cenas longas e documentais revelam o bucolismo peruano e da mesma forma o mar de indivíduos que intimamente se aprisionam na solidão de seus problemas. É curioso, mas acima de tudo doloroso, mas nas mãos de uma diretora tão caprichosa o alívio é anestesiante.

O olhar feminino de uma diretora é preocupado na composição dos detalhes, a relação disso uma explosão de significados. Esse quadro de recortes é belo, ainda mais quando o espectador identifica que no meio de um campo aberto existem, agora de forma simbólica, imensas batatas que circundam e aprisionam os indivíduos.

 

Publicado por: cinemastation | 26/10/2009

DISTRITO 9

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Por mais que falte praticamente dois meses para acabar o ano, a possibilidade de muitos filmes marcarem presença no cenário cinematográfico mundial ainda é grande. E mesmo assim arrisco em dizer que “Distrito 9” do sul-africano Neill Blomkamp é o filme mais criativo desse ano.

“Distrito 9” já ganha sua atenção a partir de sua premissa. Filmado em formato documentário, tecnicamente conhecido como mockumentary, característica também dos filmes “Cloverfield” e a “Bruxa de Blair”, o longa segue a trama de uma nave extraterrestre que fica presa no ar sobre a cidade de Johannesburgo. Como nada acontece por semanas, a cidade resolve arquitetar uma invasão. Dentro da espaçonave encontra-se um grupo de alienígenas em situações precárias. Trazidos para o solo em uma missão humanitária da cidade, passam a habitar uma área delimitada dentro da metrópole, área esta que 20 anos depois, já se transformou numa imensa favela enquanto os extraterrestres passam a ser vistas com hostilidade por seus vizinhos humanos.

Fugindo dos padrões cinematográficos, “Distrito 9” quebra os estereótipos alienígenas criados para o cinema. O que antes o víamos sob duas formas, o invasor que busca através de um plano esquemático destruir os humanos e aqueles que querem salvar o homem do próprio homem. “Distrito 9” de forma bem mais diferente e criativa representa um alien mais oprimido e resignado a comer lixo na favela.

Essa nova visão está fazendo o maior sucesso pelo mundo. Com a produção de Peter Jackson (diretor da trilogia “O Senhor dos Anéis), o longa já rendeu mundialmente US$ 163 milhões para um orçamento de US$ 30 milhões, o que é mínimo para a ambição do filme e o show de efeitos especiais.

Como força de representação, “Distrito 9” busca abordar o tema “racismo” já usado e re-utilizado no cinema, mas de forma bem mais trabalhada e criativa. A chegada dos extraterrestres é mostrada através de imagens de registros dos canais de notícias que são intercalados a depoimentos de especialistas. Dessa forma descobrimos a natureza preconceituosa do protagonista, assim como a forma de viver dos aliens.

A sensação de realidade de “Distrito 9” é desenvolvida de forma tão sutil que de certa forma coloca o espectador sem questionamentos sobre o assunto proposto pelo filme, da mesma forma como os moradores da favela. A linguagem documental logo é abalada para compor a tecnologia dos alienígenas.

“Distrito 9” mesmo com propósitos de ser mais um blockbuster, nos atinge como crítica do mundo em que vivemos. Mais uma vez estamos frente ao abalo midiático, a mídia por mais espetacular ou absurda que ela seja é o agente anestésico e o guia da população em tempos catastróficos, que seguem as pistas superficiais propostas pela notícia. O filme aproveita também o momento “catástrofe” conscientizar mais uma vez que as pessoas caminham com urgência, prestes a deparar-se sempre com algo pior. Rever crenças e valores não é ato de humanidade e bondade de cada um, transformações apenas são ditadas através das circunstâncias.

Publicado por: cinemastation | 09/10/2009

DISSECADO PELO ANTICRISTO DE LARS VON TRIER

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Todas as obras realizadas sejam elas fílmicas ou não, que tiveram a premissa de retratar a dor como sentimento regente da consciência humana, ou melhor, da natureza humana são em maior parte recebidas com expressão de asco pelo público exposto. Luto, dor e desespero sempre foram sentimentos difíceis de serem administrados e suportados, ser consumido por esses percalços de certa forma revela o mundo obscuro subjetivo de cada consciência e lentamente o câncer da humanidade.

“Anticristo” de Lars Von Trier expõe a verdade ácida sobre o tempo hedonista atual, um ensaio sobre a natureza humana que extrai de cada individuo o seu maior mal, a essência da verdade interior.

Pregar peças no espectador sempre foi a maior diversão do diretor, passar por sua filmografia é um processo de olhar-se no espelho, razão que Lars Von Trier torna-se um diretor de poucos, de certa forma odiado por muitos. Com “Anticristo” o cineasta deixa isso claro, mascarado por suas atitudes duvidosas como “criar “Anticristo” foi um processo de curar-se da depressão” e até mesmo “voltar a expressar-se criativamente”. Quem conhece Lars Von Trier sabe que  essas atitudes são de certa forma propositais, um diretor como Trier adoraria ser intitulado por críticos e cinéfilos como “O Anticristo”. Fato que “Anticristo” foi recebido comicamente dessa forma por metade dos espectadores em um dos mais conceituados festivais de cinema do mundo. O que é vergonhoso.

“Anticristo” é o filme mais subjetivo de Trier, isso não dá para negar. Ficaria discorrendo horas e horas sobre isso, o que é encantador. Nessa sua última obra o cineasta cria o exercício de auto-análise e de certa forma é assustador. É um filme forte e difícil de aceitar, mesmo porque é o espelho da consciência humana, revelada por sua própria natureza. Estar frente a isso é puramente revelador de nossas capacidades, loucuras e principalmente de nossa maldade. Com “Anticristo” de Lars Von Trier descobrimos que a linha entre o Bem e o Mal não existe, porque não sabemos do limite de cada um e para não enfrentar vamos parar no sobrenatural. Afinal é muito melhor abster-se do que aceitar-se.

Não revelo a história de “Anticristo” nesse texto porque não há necessidade e também não quero expressar os sentimentos do enredo. “Anticristo” não é um filme, é um exercício de auto-reflexão, precisamos estar livres de preconceitos, abertos a isso e principalmente ter coragem de aceitar nossa própria condição de consciência e provavelmente despertar-se. Lidar com a dor não é fácil, aceitar perder o que você a mais está preso é um processo doloroso. Não. “Anticristo” não é um filme obscuro, mas como disse é preciso estar livre para ele, a experiência diante a esse espelho é puramente catártica.

A humanidade precisa urgentemente curar-se, “Anticristo” obviamente em nenhum momento promete isso, mas revela a urgência do quão somos presos ao mínimo do que o mundo pode oferecer e ao verdadeiro monstro que podemos nos tornar se algo ou alguém nos tirar isso. De repente o “anticristo” que somos vem da própria natureza, libertar-se disso está ainda muito longe. Primeiro porque é muito fácil não querer, segundo porque é muito difícil transparecer.

Publicado por: cinemastation | 09/10/2009

CINEMA E A SUA ARTE DE PROPAGAR

A propaganda às vezes me espanta e quando esta se junta a arte do cinema muitas coisas doidas acontecem. Exemplo disso é a franquia “Jogos Mortais” como tradição desde a criação do primeiro filme, o estúdio Lionsgate lança uma coleção de pôsteres especiais da franquia em prol da Cruz Vermelha.

Chamada de “Blood Drive”, a idéia por trás dessa iniciativa é uma campanha pela doação de sangue. Conforme a tradição, os cartazes trazem uma sexy enfermeira querendo o sangue dos doadores. Confira abaixo os cartazes mais polêmicos que fizeram parte dos seis filmes da franquia.

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Publicado por: cinemastation | 15/09/2009

Por favor, Arraste-me para o Inferno.

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Fico imaginando Stephen King assistindo “Arraste-me para o Inferno” (o que já deve ter feito) sairá gritando de felicidade (ou pelo menos tentará) pelos corredores do cinema. Primeiro pela volta do diretor Sam Raimi às suas raízes e segundo pelo fato de que “Arraste-me para o Inferno” resgata o horror trash que a maioria dos cinéfilos buscavam a cada lançamento fracassado de um filme de terror.

Sam Raimi para quem não lembra é o diretor que dirigiu a franquia “O Homem-Aranha” e depois do fracassado terceiro filme de Peter Parker, o cineasta retorna às suas raízes da trilogia “Uma noite Alucinante” (Evil Dead) e compõe não o melhor de sua carreira, mas pelo menos o gostinho assustador e trash do passado com o presente “Arraste-me para o Inferno”.

Assinado por Sam Raimi e seu irmão Ivan Raimi, assim como regra de todo filme de gênero (refiro-me aos filmes de terror do passado), a história é puramente direta, sem frescuras de roteiro, não ofende de forma alguma a inteligência do espectador e diferente dos atuais filmes de horror.

“Arraste-me para o Inferno” nos conta a história de Christine Brown (Alison Lohman) que trabalha como analista de crédito e vive com seu namorado, o professor Clay Dalton (Justin Long). Um dia, para impressionar seu chefe, ela recusa o pedido de uma senhora (Lorna Raver) para conseguir um acréscimo em seu empréstimo, de forma que possa pagar sua casa. Como vingança ela joga uma maldição sobrenatural na vida de Christine.

O roteiro manipula de forma eficiente as expectativas do público, mesmo nos momentos em que propositalmente a cena se torna clichê para causar o famoso “pulo da cadeira”, o que nada mais é do que brincadeira criada por Sam Raimi fazendo a platéia rir do próprio susto que está por vir e que o “pulo da cadeira” queira ou não, vai acontecer.

Assim como em “Uma noite alucinante” e o que foi um prato cheio nos gêneros trash do passado, as cenas repulsivas são abusadas pelo diretor a fim de trabalhar com o humor negro. O exagero é pouco e a protagonista é vítima a todo momento de qualquer tipo de secreção nojenta. Hilário é também a cena mais absurda da projeção, onde nos deparamos com o longo confronto físico entre a mocinha e a cigana.

Em aspectos técnicos, Sam Raimi não esconde em nenhum momento sua diversão, abusando dos cortes secos, takes inclinados, zooms, referenciando os filmes do fim de 70. Da mesma forma abusa dos efeitos visuais colocando monstros eletrônicos a contracenar com a protagonista, o que ao mesmo tempo diverte e assusta até o último fio de cabelo.

O cinema trash infelizmente se perdeu no tempo, hoje com a tentativa de certos cineastas reinventarem o gênero, acabam caindo no ridículo. Mas não é o trash o ridículo? Com certeza não. O cinema trash assustou e muito naquela época e com a inserção dos efeitos especiais o gênero foi perdendo o seu poder “realístico” e assustador. Mas o trash sempre assustou.  Sempre caminhou por caminhos desconhecidos e ocultos o que resultou em cenas lendárias e assustadoras até hoje.

Portanto, é maravilhoso encontrar ainda alguns presentes como “Arraste-me para o Inferno”, mesmo porque a nostalgia sempre foi deliciosa de apreciar. Hoje o mundo consome o descartável, o que pode em certos momentos não ser ruim, mas é tão bom resgatar as coisas boas do passado, é como o sentimento daquela famosa cena da mocinha que assustada “pula da cadeira” e vai aos braços do rapaz para confortar-se. Parar um pouco e respirar nesse mundo avassalador às vezes é necessário e o cinema está aí para isso. Para assustar ou rir ele sempre vai estar lá para nos anestesiar em um saudosismo nostálgico.

Publicado por: cinemastation | 31/08/2009

Sobre trilhas: A Vila

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“A Vila” de M.Night Shyamalan é um filme ótimo, apesar de já ter escutado de muitas pessoas que o filme é horrível, mas sempre discordo. Os filmes de Shyamalan tem um toque totalmente original, não dá para negar, seja por sua especificação técnica, ou pelo roteiro original e mesmo pela direção, Shyamalan de certa forma sempre foi transparente em suas criações, por mais banalizadas que pudessem surgir, o desfecho de cada filme até o “A Vila” o diretor mostrou-se puramente original.

Mas falando em originalidade, “A Vila” merece atenção à sua soronidade, um complemento puramente necessário para o clima sugerido pelo filme. James Newton Howard, obviamente sempre com maestria preenche com perfeição a camada sonora sobre formas de ver o mundo e da mesma forma senti-lo.

Desde ao momento terno em descrever as aldeias existentes no filme nas trilhas “Noah Visits” e “What Are You Asking Me?” a forma aterradora e sufocante das faixas “Those We Don´t Speak Of”, “The Forbidden Line” e “It Is Not Real”. A |Trilha sonora de “A Vila” soa única e inovadora, tirada de sua proposta fílmica, surge como ensaio musical e miscelânia de notas que levam os espectadores a uma experiência musical única.

“A Vila” é um álbum a compor o quadro de trilhas sonoras, obviamente com destaque, apreciar um ensaio como esse é necessário mente aberta, da mesma forma para o filme que repete seus acertos e virtudes e exalta mais os nomes de Shyamalan e James Newton Howard.

Revelar o medo, a ignorância e o preconceito de uma sociedade multifacetada de forma puramente expressiva são ideologias que representam o difícil ver, difícil compreender do público que está exposto a isso. Falar sobre o poder do amor, a necessidade de enfrentar o medo, a vergonha de expressar sentimentos, a perturbação do passado, a fé ou a falta dela sobre a busca da verdade são fatos tão escancarados na sociedade que a impedem de certas formas isolar das ações do Mundo, criando um muro alto de medos que formam a carrancuda carapaça da não-evolução, assombrada por monstros de falácias que trucidam de certa forma a busca das “verdades”. O conjunto que forma “A Vila” representa todo esse desespero de sociedades que se isolam da disperticidade e da sua incapacidade de conhecer o outro.

Publicado por: cinemastation | 17/08/2009

Festival estranho Festival

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Em alguns textos anteriores acredito que pude deixar claro sobre a identidade do cinema brasileiro, e até mesmo quem me conhece, sabe o quanto declaro minha paixão pela a filmografia nacional. Infelizmente, no dia 13 desse mês fui testemunha de uma das mais vergonhosas homenagens que o cinema nacional já recebeu e tomei como prova o fracasso do Festival de Cinema de Gramado desse ano. E declaro que a cada ano de sua existência o festival assina seu atestado de insanidade.

Homenagear Xuxa Meneghel, celebrar e honrar a produção em massa de materiais sem cunho artístico e colocar a “rainha dos baixinhos” como contribuidora da identidade do cinema brasileiro? Defender que ela fez filme de sucessos é praticamente assistir forçadamente uma sessão de comédia do ridículo, e assumir que Sacha Baron Cohen é o nosso rei. A receita do sucesso de um filme não é essa, a presença de Xuxa nos cinemas a cada fim de ano também não. O que forma público e sucesso de um filme são histórias bem contadas, envolventes e diferentes daquelas da televisão. A marca Globo estampada numa  tela de cinema, não quer dizer que aquilo necessariamente é cinema, a criança alienada a isso, nunca descobrirá a diferença entre arte e televisão.

Um Festival de Cinema que até certo ponto assumia o seu conceito de arte, hoje promove a exploração e homenageia a censura do pudor. Seria a tentativa de criar um carnaval com o objetivo de ser visto novamente como um dos principais festivais do país? O festival pagou R$ 60 mil reais à “Rainha” para ofender e envergonhar mais uma vez a identidade do cinema brasileiro. Acusar que sofreu preconceitos, dizer que é do povo e finalizar a palavra com um clichê “Eles vão ter que me engolir” já ultrapassado é um discurso sem coerência alguma.  Enfim, tudo bem. Se vangloriar com o “cuspe” da Rainha é vergonhoso, aclamar seu discurso, mais ainda.

Publicado por: cinemastation | 11/08/2009

Eu te amo, Cara.

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“Eu te amo, Cara do diretor John Hamburg é mais um comédia romântica, mas diferente de todas as outras. Com a premissa de já contradizer o clichê padrão do gênero como propõe a idéia do filme, “Eu te amo, Cara são quase duas gostosas horas de dar risada, falar de amor, companheirismo e abster-se de qualquer tipo de preconceito.

Com o roteiro escrito por Larry Levin e o próprio diretor John Hamburg, “Eu te amo, Cara” contrapõe o gênero comédia já nos primeiros minutos do filme com o pedido de casamento feito pelo protagonista à mulher amada que aceita sem crítica alguma. Outro ponto é o objetivo proposto ao protagonista, o que antes seria a própria amada, agora é um homem para ser seu amigo. Falando um pouco da nova febre aos norte-americanos, o romance entre amigos ou bromance (romance entre “brothers”) “Eu te amo, Cara conta a história de um simpático sujeito que durante sua vida só conseguiu estabelecer amizade com mulheres, Peter Klaven (Paul Rudd) só percebe que não tem amigos do mesmo sexo quando descobre que em seu casamento não haverá padrinhos. A partir disso começa uma busca desenfreada e às cegas atrás de homens que possam ser seu amigo até que por acaso conhece Sydney Fife (Jason Segel).

A partir desse ponto “Eu te amo, Cara começa a ganhar consistência e independência quando o diretor assume as rédeas do filme e começa a brincar com o gênero. Divertido e criativo é quando em alguns momentos clichês e comuns da comédia romântica se negam a correr previsíveis, como a cena de Peter e Sydney gritando sob um cais, o espectador em certo momento espera ver a reação do protagonista ao perceber que os figurantes ouviram seus gritos, mas antes disso o corte é feito e a outra cena já começa sem perder tempo com a piada sempre batida. Em certo instante também quando o espectador vê Peter e alguns companheiros andando em câmera lenta, o que dá ao grupo um ar de superioridade e esperteza, mas logo a cena volta ao normal quebrando toda ilusão criada na cena anterior. Outra cena é quando Peter resolve mostrar à sua noiva uma música de sua banda favorita, o som que sai das fracas caixas do seu laptop diverte pela contradição já que em um cena clichê a musica seria contagiante na trilha sonora.

Mas fora a seus aspectos técnicos “Eu te amo, Cara” encanta pelo seu lado humano assim como quando o irmão de Peter (Andy Samberg), homossexual assumido, é visto pelo pai como seu melhor amigo e sua orientação sexual no filme jamais é motivo de piadas. “Eu te amo, Cara” é natural até mesmo em seu relacionamento entre os protagonistas o que antes poderia sugerir algum sentimento sexual, o filme é unicamente para falar de sentimentos.

Sentimentos em uma comédia é preciso ter criatividade, “Eu te amo, Cara não procura em nenhum momento tornar-se “pastelão” ou até mesmo arrogante. O filme fala da simplicidade, assim como a vida deveria ser, o relacionamento entre as pessoas é uma coisa comum e não precisa ser complexo, assim como gostar ou amar alguém. Sabemos que muitas vezes complicamos porque queremos complicar e tornamos a simplicidade a tarefa mais árdua porque queremos assim. Se é tão difícil dizer eu te amo, Cara nossa concepção precisa ser mudada afinal o mundo está precisando disso.

Publicado por: cinemastation | 03/08/2009

A ESTÉTICA DE ANTÔNIA


Esses dias me deparei com “Antônia” de Tata Amaral, juro que ainda quebro as barreiras do meu “pré-conceito” com filmes que levam a assinatura da Globo Filmes. “Antônia” sempre pareceu gritar nas prateleiras das vídeolocadoras e eu sempre procurei ignorar o seu grito. Mas como nenhum outro tipo de “opção” me ocorreu, resgatei “Antônia” e fui atacado por um musical belamente dirigido e produzido, como uma canção que ecoa como poesia para os sentidos. Lembrei-me de Glauber Rocha e sua estética da fome e descobri que deixar levar por seus preconceitos é vergonhoso.

(..) Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não entendeu. Para o europeu, é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro, é uma vergonha nacional. Ele não come, mas tem vergonha de dizer isto; e sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós – que fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto, – que a fome não era curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem, mais agravam os seus tumores. (..) (ROCHA, Glauber. Uma estética da Fome)

Não dá para negar que o inicio de “Antônia” chega a lembrar vagamente a premissa do horrível “Dreamgirls” Em Busca de um sonho”, inclusive cheguei a me perguntar depois se isso tudo não era proposital. Em partes, porque “Antônia” de forma simples deixa “Dreamgirls” no chão, deixando claro que nenhum tipo de glamour hollywoodiano cantando historinhas tristes arrebate o coração daquele que escancara a realidade na sua frente.
“Antonia” conta a história de Preta (Negra Li), Barbarah (Leila Moreno), Lena (Cindy) e Mayah (Quelynah) onde desde pequenas sonham em viver da música. Descobertas por um empresário começam a se apresentar em pequenos eventos. Com a câmera sempre em movimento e a edição em cortes secos, “Antônia” ganha um estilo muito parecido com o documentário, escrito também por Tata Amaral ao lado de Roberto Moreira a trama se desenvolve no relacionamento entre as quatro mulheres e suas dificuldades.
Lutando avassaladoramente para conquistar a ascensão profissional, o grupo musical que dá nome ao filme, precisam se desvencilhar da miséria e da violência e da própria realidade sufocante. Com uma direção de fotografia muito bem trabalhada, o fotógrafo Jacob Solitrenik representa fielmente o sentimento de “Antônia” mergulhando a câmera nos inclinados caminhos do morro, onde o sonho está na paisagem fora daquele retalho social, no embaçado e granulado céu, o que revela a estética do cinema nacional, o estranho surrealismo tropical que nos dizia Glauber Rocha.
Não dá para não falar do elenco criado por Sérgio Penna, das quatro jovens cria com naturalidade incrível, o valor documental de “Antônia”. Curioso também é o trabalho das atrizes que em certo momento percebem até a presença da câmera revelando ao público a proposta do documentário. Até o empresário Diamante (Thaíde) divertidíssimo, mostrou-se um ótimo ator.

(…) já passou o tempo em que o Cinema Novo precisava processar-se para que se explique, à medida que nossa realidade seja mais discernível à luz de pensamentos que não estejam debilitados ou delirantes pela fome. O Cinema Novo não pode desenvolver-se efetivamente enquanto permanecer marginal ao processo econômico e cultural do continente Latino-Americano; além do mais, porque o Cinema Novo é um fenômeno dos povos novos e não uma entidade privilegiada do Brasil: onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade, e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura intelectual, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo. Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e as sua profissão a serviço das causas importantes do seu tempo, aí o haverá um germe do Cinema Novo. A definição é esta e por esta definição o Cinema Novo se marginaliza da indústria porque o compromisso do Cinema Industrial é com a mentira e com a exploração. A integração econômica e industrial do Cinema Novo depende da liberdade da América Latina. Para esta liberdade, o Cinema Novo empenha-se, em nome de si próprio, de seus mais próximos e dispersos integrantes, dos mais burros aos mais talentosos, dos mais fracos aos mais fortes. É uma questão moral que se refletirá nos filmes, no tempo de filmar um homem ou uma casa, no detalhe que observar, na moral que pregar: não é um filme mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim, ao público a consciência de sua própria miséria. (…) (ROCHA, Glauber. A Estética da Fome).

“Antônia” revelou-se mais uma obra prima do cinema nacional, como proposta do consumo já dito por Glauber Rocha, estamos num patamar em que o cinema estrangeiro nos vê como discussão social e um surrealismo cult, o que é um pouco vergonhoso quando nós, brasileiros, vemos tudo isso como apenas uma vergonha nacional.

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